segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Português; aula 16. Texto linda de morrer

Linda de morrer
O pai resolveu abrir uma funerária.
- Tem muita gente morrendo. É negócio do futuro!
Ao que a mãe acrescentou:
- Gente que nunca morreu tá morrendo.
O filho perdeu a paciência.
- Dá pra parar com as piadinhas sem graça? Abrir um negócio não é brincadeira não.
O pai sorriu condescendente. Sabia que o filho estava bem-intencionado. Mas é que o rapaz tinha acabado de concluir um desses MBAs da vida, e só conseguia raciocinar em termos mercadológicos.
- Calma filho. Você só fala de critérios, métodos, empredorismo... não sei nem falar esse troço.
- Empreendedorismo, pai.
- Pois é. Estou querendo pôr o nome de "Funerária Vai com Deus".
- Pelo amor de Deus!
- Também é bom, mas "Vai com Deus" é melhor.
- Não, pai, pelo amor de Deus, não põe um nome desses!
E olhou ansioso pra mãe, pedindo socorro. A mãe nem tchum.
- Acho que é um nome interessante, filho. Diferente. Ousado.
O pai emendou
- Imaginem só o slogan: "Na hora de morrer, Vai com Deus".
A mãe soltou uma gargalhada
- Vocês dois parem com isso! - O filho já estava vermelho. - Que coisa mórbita!
- Vamos pensar com um mínimo de...
- Emprendee... dorimos...
- Do... rimos!
- Domos!
- Empreendedorismo! - o filho berrou.
- Ah é. Quer ver outro nome bom? Funerária Sete Palmos...
- Passagem de ida! - a mãe entrou na tabela
- Último Adeus! o pai emendou.
Agora os dois já riam solto. O filho olhando pro chão, besta. Já estava calculando os prejuísos.
O pai não parava.
- "Funerária Último Adeus. Uma empresa linda de morrer".
- Uma empresa linda de morrer! - a mãe repetiu, saboreando cada palavra
- Linda de morrer... - o filho repetiu, mordendo as palavras. - Nem Freud explica vocês dois.
- Engano seu, filho. Você sabia que o Freud era fanático por humor negro? Ele adorava o anúncio de uma funerária americana que falava assim "Pra que viver, se você pode ser enterrado por dez dólares?"
- Sensacional! - a mãe já batia as mãos na mesa de tanto rir.
- E lembra aquele cemitério que tinha o slogan assim " Se você não pode saber quando, saiba pelo menos onde". Dessa vez, até o filho deixou escapar uma risada.
- É verdade. Essa propaganda eu lembro. Engraçado, na época eu achei esse slogan muito bom. É claro que eu ainda não tinha conhecimentos de...
- Perdedorismo...
- Predadorismo...
O filho saiu batendo os pés, resmungando para si mesmo: posicionamento, agregação, downsizing, rigntsizing e acima de tudo, empreendedorismo. Seu pai nunca lá mesmo iria dar conta daquelas palavras lindas de morrer.

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